Em reunião ministerial, Bolsonaro relata como agiu no Iphan após queixa de empresário apoiador

Em reunião ministerial, Bolsonaro relata como agiu no Iphan após queixa de empresário apoiador

Declaração foi dada na reunião ministerial de 22 de abril; sigilo do conteúdo foi retirado nesta sexta (22). ‘Iphan para qualquer obra do Brasil, como para a do Luciano Hang. Enquanto tá lá um cocô petrificado de índio, para a obra, pô”, afirmou o presidente. Em reunião, Bolsonaro deu o exemplo da troca do comando do Iphan
O presidente Jair Bolsonaro relatou na reunião ministerial de 22 de abril como agiu no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) após ter recebido uma queixa de um empresário que o apoia. A queixa se referia ao embargo de uma obra no Rio Grande do Sul.
“E assim nós devemos agir, como tava discutindo agora. O Iphan, não é? Tá la vinculado à Cultura. Eu fiz a cagada em escolher, nu … não escolher uma, uma pessoa que tivesse o … também um outro perfil. E uma excelente pessoa que tá lá, tá? Mas tinha que ter um outro perfil também. O Iphan para qualquer obra do Brasil, como para a do Luciano Hang. Enquanto tá lá um cocô petrificado de índio, para a obra, pô! Para a obra. O que que tem que fazer? Alguém do Iphan que resolva o assunto, né? E assim nós temos que proceder”, afirmou o presidente.
No dia 11 de maio, 21 dias depois da reunião ministerial em que Bolsonaro criticou a atuação do Iphan, o governo nomeou Larissa Peixoto para a presidência do órgão. Ela é servidora do Ministério do Turismo há 11 anos.
O cargo estava vago desde dezembro. Quem estava na função, de forma interina, era um servidor de carreira do órgão.
Em nota, a Sociedade de Arqueologia Brasileira declarou que acompanhou com “perplexidade” as manifestações do presidente da república. E que Bolsonaro demonstrou “total falta de conhecimento” dos processos e “nenhuma” preocupação com as heranças culturais deixadas por diversas sociedades que habitaram o país.
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Gravação
A gravação do encontro foi entregue ao Supremo Tribunal Federal (STF) como parte do inquérito que investiga suposta tentativa de interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal.
A reunião entre Bolsonaro e ministros foi citada pelo ex-ministro Sergio Moro, que diz ter sofrido pressão do presidente, nesse compromisso oficial, para trocar ocupantes de cargos de direção na PF.
O sigilo “pontual e temporário” determinado pelo ministro Celso de Mello sobre o vídeo da reunião foi retirado nesta quinta-feira.
O processo tramita sem cláusula de sigilo, mas o vídeo da reunião foi mantido com acesso restrito porque, na visão do governo, o encontro tratou de temas sensíveis à segurança nacional e à relação do Brasil com outros países.
A reunião ministerial
A reunião ministerial citada por Moro aconteceu em 22 de abril. Além do presidente Bolsonaro, estavam presentes o vice, Hamilton Mourão, Moro e outros ministros. Ao todo, 25 autoridades participaram do encontro.
No encontro, Bolsonaro reclamou da falta de informações da Polícia Federal e afirmou que iria “interferir”. A declaração, no entanto, não deixa claro como ele faria isso.
Cronologia
24 de abril, manhã: Sergio Moro se demite do cargo de Ministro da Justiça, e diz que Jair Bolsonaro interferiu na PF ao demitir o então diretor-geral do órgão, Maurício Valeixo, e insistir na troca do comando da PF no Rio de Janeiro.
24 de abril, tarde: Jair Bolsonaro faz pronunciamento cercado pela maioria de seus ministros e diz que Moro propôs aceitar demissão de diretor da PF se fosse indicado ministro do STF. O presidente nega interferência mas diz que pedia a Moro, e nunca obteve, um relatório diário das atividades da PF para poder tomar decisões de governo.
24 de abril, noite: Jornal Nacional revela parte das mensagens trocadas entre o ex-ministro e a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), em que ela tentava convencer Moro a permanecer no cargo.
24 de abril: Procurador-geral da República, Augusto Aras, solicita abertura de inquérito para apurar declarações de Moro.
27 de abril: Celso de Mello autoriza inquérito no STF para apurar declarações de Moro com acusações a Bolsonaro.
2 de maio: Ex-ministro Sergio Moro presta depoimento de mais de 8 horas na sede da PF em Curitiba.
6 de maio: Celso de Mello determina que vídeo seja entregue pelo governo em 72 horas.
6 de maio: AGU vai ao STF para tentar rever decisão que mandou entregar vídeo de reunião citada por Moro.
9 de maio: PGR pede acesso à integra do vídeo de reunião entre Bolsonaro e Moro.
14 de maio: Divulgada a íntegra da troca de mensagens entre Moro e Zambelli; deputada diz a Moro que Bolsonaro ‘vai cair se o sr. sair’.
14 de maio: AGU pede ao STF que libere somente as falas do presidente Jair Bolsonaro; defesa de Moro alega que a petição omite trechos relevantes para a compreensão correta da fala do presidente, e reforça pedido para publicar vídeo na íntegra.
15 de maio: Jair Bolsonaro admite, pela primeira vez, que citou a PF no vídeo da reunião ministerial e confirmou que a transcrição da Advocacia-Geral da União está correta.
19 de maio: Celso de Mello assiste à íntegra do vídeo da reunião ministerial.
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